24 de maio de 2015

[642 coisas] Perdendo a memória...



Já passei por aqui, o barulho do mar nessa distância e com sua plenitude é lembrança, sinto isso. Eu sei, estou velho e fraco, nem meus pés querem me manter vivo um dia de cada vez por tempo suficiente. Eles doem, mas meu coração dói mais. Tenho vagas memórias ainda intactas na cabeça, eu amava alguém. Lamento minha história ter sido clichê, mas eu não lembro do rosto dela e também não lembro de ter sido correspondido. Tenho algo aqui dentro que ascende cada vez que penso nesse sentimento, como se eu o tivesse aprisionado e implorasse por liberdade. Não consigo o libertar, não lembro para quem esse sentimento voaria. Meus filhos nunca falam sobre sua mãe em nenhum momento, me sinto perdido.

Não há resquícios do homem que fui. Sobraram certos sentimentos, esse amor que ainda brilha em mim e um monte de angústias e medos mais. Suponho que meu grande amor já tenha partido ou simplesmente teve receio de me reconquistar outra vez. Como é ruim estar velho, uma caminhada leve custa um fôlego esgotado, mas a vista e a calmaria do mar me confortam a ponto de descansar os pés e o coração. Às vezes sinto uma vontade imensa de rever todas as lembranças que ficaram acumuladas em algum lugar do meu cérebro e que insistem em demorar à voltar. Já reapresentaram meus filhos à mim e juro que no momento pensei: jamais criaria seres tão lindos como esses. E eles tinham netos, miniaturas da genética da família. Foi tudo tão novo e tão desesperador. Eu perdi a memória de súbito e o terror que se hospedou em mim também chegou assim: sem dizer nada. Penso que o melhor seria não lembrar, mas por que insisto tanto? 

O mar está agitado hoje, parece querer dizer alguma coisa. Uma vez joguei uma carta ao mar dentro de uma garrafa, eu teria esperanças de encontrá-la cada fim de tarde que passo aqui, mas naquele mesmo instante que a joguei ela afundou e a água inundou toda a minha caligrafia horrível. Nunca mais a vi. Espere, acabei de lembrar de algo. O Alzheimer está me destruindo, será que esqueço tudo do dia todas as noites que adormeço? Isso é tão ruim! 

- O senhor está melhor?

Eu lembro dessa voz, eu amo essa voz. Uma enfermeira sentou-se ao meu lado, como é possível lembrar de sua voz e de todo o resto esquecer? Não, espera, aquilo ascendeu de novo. Não pode ser, eu encontrei o amor em meio às minhas lembranças? 

- Estaria melhor se cantasse para mim como fazia antigamente.

Ela sorriu um sorriso largo e suas rugas ficaram mais aparentes. Eu a ouvi sussurrar melodicamente a nossa música e apenas retribui seu mais belo sorriso. Minutos depois comecei a perder a memória sem êxito em tentar quebrar a sina desse meu destino. Meu amor apagaria novamente de mim. 

- Gabrielle Roveda


* Texto inspirado no tema 130 do desafio 642 coisas sobre as quais escrever.

2 comentários:

  1. Que texto maravilhoso, fiquei revendo as cenas a medida que ia lendo ♥ Geralmente encontramos saídas em situações complexas, e por mais bobo que seja, uma simples coisa pode mudar tudo. Um amor assim é pedir muito? Espero que não.

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    1. Obrigada flor! <3 Um amor de verdade, por favor.

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