2 de junho de 2015

Meus monstros não estavam em baixo da cama


**Contém enredo indicado para maiores de 14 anos.**

Hoje durmo tranquila em um apartamento sozinha, estou longe do que antes pensei ser minha única vida. Sou Melissa e antes que me perguntem, tenho 21 anos. Descobri há um bom tempo que o meu maior medo não estava em baixo da minha cama, exposto aos meus pés e pronto para me puxar à noite. Eu tinha 8 anos na época, os cabelos longos semi-presos com uma fita vermelha, tinha medo de ir ao banheiro sozinha por causa de milhares de lendas que me contaram. Todas as noites eu dormia com um beijo de boa noite de minha avó, mas logo depois que ela faleceu as coisas mudaram na minha casa.

Numa noite, uma semana exata após a morte dela, era hora de dormir. Eu estava sozinha em casa, então liguei as luzes do corredor e das escadas, subi para o meu quarto e pulei em cima da cama me enrolando rapidamente aos cobertores... mas, eu ouvi o monstro que me assombrava pelo sétimo dia. Meus pais moravam comigo, mas dificilmente estavam em casa antes das 22h, pois trabalhavam até tarde. E antes eu tinha minha avó por perto. Naquela noite tive que me virar sozinha e não consegui por um segundo sequer dormir. 

Ouvi as batidas em baixo da cama e certos arranhões na parede, meu medo era tanto que eu tremia. Tive um alívio ao ouvir a porta no andar de baixo abrir, eu sabia que eram os meus pais chegando. Minutos depois ouvi os passos subindo as escadas e então, uma batida forte na porta do quarto. Mas o monstro continuou com o seu espetáculo. Batia três vezes, esperava, arranhava a parede, esperava um tempo mais e recomeçava tudo. Tive medo de colocar os pés para fora da cama. 

"Por favor, vá embora, pare de me assustar", pensava. Até que ouvi um grito alto da minha mãe e me assustei, "será que o monstro tinha pegado ela para sempre?". Pensei na minha avó e em como ela dormiu eternamente em seu quarto após ter me dado 'boa noite'.

Mais um grito que foi emudecido e eu pasma em um montinho de cobertas. Resolvi ir correndo até a porta, a abri e um feixe de luz iluminou meu quarto, não tive coragem de olhar para trás. Fui em direção ao quarto dos meus pais e comecei a ouvir a conversa mais nitidamente. Me esgueirei atrás da porta em silêncio no corredor, eu precisava salvá-los desse monstro, nem que isso me custasse todo pavor do mundo.

- Você sabe que ela não é sua filha! - gritou mamãe - Ela não tem nem um fio de cabelo igual ao seu. - Ouvi um estrondo enorme e senti o chão tremer. 

- Cale a boca, vadia. - gritou papai em resposta - Quando parar de beber e usar essas drogas irá trabalhar novamente comigo.

- Eu não quero trabalhar nesse lugar mais - respondeu ela - os homens me querem e você é que vai sair perdendo. 

- Cale a sua boca - ouvi um barulho de tapa - amanhã fará seu trabalho direito ou a matarei junto com aquela garota ridícula que por descuido colocou no mundo.

Foi nesse momento, escutando atrás da porta que um feixe de luz atingiu mamãe no quarto jogada aos pés da cama e ela me viu quando deixei a porta abrir. Eu lembro de ela gritar dizendo para eu ir embora e pedir para sumir da vida dela e do olhar de monstro que papai me fuzilou. Corri às pressas, tranquei a porta do quarto e me enfiei em baixo da cama ignorando os passos apressados deles em minha direção. Fui justamente para onde outro monstro me esperava, porém descobri que meus monstros não estavam em baixo da cama. 

Encontrei papeis jogados e um desenho meu. Eu havia desenhado o monstro que tanto temia atrás de um folheto da polícia onde tinha números para socorros quando crianças precisassem. Peguei o celular da vovó que havia ficado comigo, disquei o número e fechei os olhos ignorando todo tipo de batida que ouvia na porta trancada.

- Monstro de baixo da cama, apareça! - dei três batidas e arranhei o chão. - Me leve embora também, como fez com a vovó, eu encontrei monstros piores aqui. Por favor!


*OBS: Conto fictício em defesa aos direitos da criança e do adolescente. 
**OBS: Texto inspirado no tema do projeto + QP - Mais Que Palavras do mês de Junho. 

12 comentários:

  1. Mas gente, me arrepiei com esse texto, simplesmente maravilhoso. Retrata bem o que muitas crianças sofrem dentro de casa, pena que nem todas conseguem ter a coragem de Melissa e se livrar de seus monstros. Parabéns pelo texto. Beijos Flor

    Floreios

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    Respostas
    1. Muito obrigada flor! ♥
      Verdade, precisamos de mais Melissas e mais cartões em baixo da cama para mudar essa realidade.

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  2. Gente, que texto que é esse menina? Ficou incrível, e assim como a Luci relatou acima, retratou muito bem o que algumas crianças passam em casa. Adorei o conto ♥

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  3. Ficou muito bom! E você conseguiu retratar o que algumas crianças passam. Tá de parabéns!

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  4. Lindo! Adorei a sensibilidade do texto, retratando a vida de muitas crianças oprimidas em seus próprios lares. Parabéns! Bjss www.janelasingular.com.br

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  5. Gente até arrepiei aqui! Conto perfeito, que retrata o drama vivido por muitas crianças. Parabéns!

    www.minhacoroadesonhos.blogspot.com.br

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  6. Meus parabéns pelo eu texto, reflete bem a realidade do mundo hoje. É uma narrativa bem honesta e simples. EU CURTI :D

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