17 de julho de 2015

[642 coisas] Descrevendo uma realidade distorcida

Está vendo aquela garota apoiada sobre os punhos naquele café da esquina olhando para a mesa fixamente? Aquela com os cabelos castanhos esvoaçantes pela brisa da manhã entrando na janela e com pequenos cachos que se formam nas pontas douradas pelo sol de verão. Creio que esteja com seu vestido preferido, ela ama vestidos! É um tom de azul escuro pelo que vejo de longe e se não me atrevo a errar garanto que é aquele com flores brancas rodado e um laço perfeito nas costas. Daqui não enxergo muito bem, confirma para mim que provavelmente aquele interesse todo não é pelos nós da madeira e sim por mais uma obra literária sendo devorada logo cedo. Eu sabia, ela é faminta por conhecimento e novas histórias.

Sabia que ela gosta de café e só o cheiro faz lembrar os anos vividos na fazenda de sua avó, onde nem luz ou água encanada tinha na época. Ela gostava daquele ambiente, gostava de visitar a avó e ajudá-la a buscar água na fonte ou de dormir depois de sentir o cheiro de queimado que a vela proporcionava quando era apagada. Era bom sair do tumulto da cidade de vez em quando, mas o melhor era ouvir o galo cantar as cinco horas da manhã e correr cuidar dos animais por lá presa pela mão do seu avô. Olhando-a assim, tão envolvida nas páginas de um livro ninguém diz que ela tem tanta história para contar.

Aquela covinha pequena no canto da boca quando ela sorri sem mostrar os dentes é puro charme, por incrível que pareça esse é o meu sorriso preferido de admirar. Acredito que é o mais sincero e inocente. Ela se apega tão fácil a sorrisos e olhares, se apaixona por mínimas coisas que passam despercebidas e normalmente não sabe ganhar um elogio sem corar e dar uma risadinha tímida. Também não lida muito bem com as pessoas, não sabe conversar com quem não quer conversar, mas quando acha alguém que lhe faça ter algum interesse passa a se achar irritante por sentir necessidade em aproveitar o tempo com aquela pessoa. 

Ah, o tempo! Maior aliado daquela garota de olhos grandes e brilhantes não há, ela ama o passar dos momentos e grava todos como um filme na sua cabeça lotada de pensamentos. É um álbum de recordações ambulante que vive em busca de novas fotografias para a coleção. Já falei que anseia por fazer coisas diferentes e experimentar tudo o que a vida conseguir lhe proporcionar? Poderia ser aventureira, mas anda a passos curtos escolhendo o caminho com cuidado mesmo sonhando longe. Não se arrisca totalmente, meio que prepara os passos antes de enfim dá-los. Não contei que é sonhadora, mas depois dessa descrição toda, achei desnecessário.

A observo terminando seu último gole de café e fechando o livro marcando o lugar onde parou com as mãos de unhas delicadas rosa claro descascando. Foi embora sem olhar para trás distribuindo seu sorriso humilde e um "bom dia" à todos que lhe concedem o olhar. Ela levantou-se para viver mais um dia. É o tipo de garota que não abandona seus sonhos e faz de cada novo amanhecer uma casa andada no tabuleiro da vida. Garota de riso fácil, de olhar sincero e de amores perdidos que nunca deixou de amar o mundo, as pessoas e o viver por alguma decepção. Eu poderia dizer que sei muito sobre ela, mas a gente nunca sabe muito sobre si mesmo à ponto de tentar descrever. Desculpe a falha, posso ver distorcida a realidade dessa garota ou, como preferir, essa minha realidade.

**Texto baseado no item 1 - Descreva a sua aparência física em terceira pessoa como se fosse um personagem - do desafio 642 coisas sobre as quais escrever**

4 comentários:

  1. Amei seu texto, fico de cara como você escreve bem moça.
    Parabéns.
    Beijos

    http://tecontopoesia.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Que bom que gostou flor! Ah, para, nem tanto! ♥

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  2. Nha, ficou um encanto ♥ É sempre mais difícil falar quando é sobre nós mesmos né? Mas mandou muito bem.

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