23 de julho de 2015

Só não repare a bagunça

Entenda, minha vida é um pouco tumultuada, a gente nunca tem tempo para organizar tudo de uma vez só. A faxina é só na sexta e as roupas amassadas em cima do sofá não são relaxamento. As coisas andam corridas, dá tempo de regar as flores para não deixá-las morrerem ao sol da janela e lavar a louça para não acumular. Quero que entenda que por mais estranho que pareça consigo encontrar a chave ou a carteira no meio daquela pilha de papéis e livros lidos na escrivaninha. Sou organizada no meio da minha bagunça. Desculpe os pelos no tapete, meu cachorro não entende muito bem de bons modos e sai rolando por aí. O quadro na parede que era para ser uma decoração está meio torto, mas as coisas aqui dentro também não estão em linha reta. Desculpe se tropeçar em algum pincel perdido na pequena sala, cuidado também para não manchar a roupa com alguma pintura meio molhada, a tinta demora para secar às vezes.

Por favor, não se incomode em entrar, só não repare na bagunça que vai encontrar. A gente nunca sabe por onde começar primeiro. Acabei deixando muita coisa acumular, vou ter um trabalho danado para organizar tudo. Eu acostumo, já acostumei na verdade. Se quiser um café eu lavo minha xícara preferida e faço um para você, gosto dela porque foi por ela que larguei a mamadeira. História bonita, não? Veja que honra beber da xícara que me fez uma escritora viciada em cafeína. Pois é, não repare muito no infinito de universos rabiscados que pode se topar por todo canto. São só retalhos de histórias não terminadas ou pedaços de mim jogado pela ponta de canetas nas entrelinhas. Não, não se assuste, sou uma pessoa determinada: um dia publicarei meus contos encantadoramente finalizados. Eu juro. Quer sentar, está com frio? Posso ligar a lareira se quiser... só tenho que pegar um pouco de lenha e a gente já pode fugir do inverno e se aquecer.

Perdão pela falta de jeito, só estou meio encabulada com toda essa bagunça. Não pensei que tão cedo meu contorno teria de ser apresentado a alguém, mas você insistiu num copo d'água e bom, em afinar meu violão. Que tonta sou, vou buscá-lo, está meio velhinho, foi do meu avô então cuida bem dele pois é relíquia de família. Não sei trocar mais que alguns acordes, mas eu aprendo fácil. Não vejo a hora de preencher esse apartamento com algum som além do silêncio. A inquietude do vazio me dá calafrios, dedilha logo esse instrumento, quero ver teu potencial. Sabia que o som da sua risada combina mais com a música que essa melodia entrecortada? Veja só, esqueci que sou uma bagunça e tem um pouco de pó no braço do violão. 

Queria dizer só mais uma coisa, pare de me olhar com essa cara. Essa mesmo de quem gosta do que é disforme, de quem quer se acostumar com a bagunça. Logo você, que é tão certinho e impecável, deixando o olhar brilhar para um apartamento retalhado. Espere, não, não pode ser. Sim, eu sei que o exterior ao nosso redor mostra quem somos segundo teses psicológicas, você acha mesmo que sou uma bagunça? Não, não me diga que gost... Ué, por quê me beijou? 

4 comentários:

  1. Sempre me surpreendo quando chego por aqui, seus textos sempre têm algo que os diferencia dos outros ♥ "Quero que entenda que por mais estranho que pareça consigo encontrar a chave ou a carteira no meio daquela pilha de papéis e livros lidos na escrivaninha. Sou organizada no meio da minha bagunça." Me descreveu por completo.

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    Respostas
    1. Que lindo ler isso Kelly! Muito obrigada ♥

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  2. Como não gostar do que escreve moça?
    Que texto mais gostoso, tão aconchegante.
    Lindo demais.
    Beijos
    ♥ Te Conto Poesia

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