22 de julho de 2015

Uma manhã particularmente diferente

Hoje não foi um dia normal, eu senti sua falta. No interior das minhas manias ridículas de teorizar o mundo eu incluo você e da última vez sua presença se tornou vazia. O sol do amanhecer atrasado brilhou pelo vidro fosco da janela e o leve balançar das cortinas mostrou um dia novo para mim. Sem hesitar avistei de longe a sacada do seu apartamento e as paredes mudas da cidade ainda envoltas na neblina de inverno. O dia era de sol em pleno frio de julho, mas dentro de mim algo começava a congelar. 

Sentei no parapeito da janela e observei a rua tomar vida, o senhor de cabelos grisalhos abria sua mercearia como todos os dias, sua esposa lhe roubava um beijo e partia para o trabalho no seu velho fusca branco banhado por gotículas de suor da madrugada. O florista da esquina abria sua pequena floricultura e a moça da banca de revistas entregava os jornais para o pequeno Pedro em sua bicicleta fazer a rota da manhã. Não vi a luz do seu quarto ligar às cinco da manhã quando de fato acordei, muito menos às sete sentada no vazio do meu quarto. Até meu café eu havia esquecido de preparar, hoje foi um dia diferente, tente me entender.

A hora correu e permaneci observando cada nova pessoa que emergia da porta do seu prédio. Dona Alzira, Madame Amélia, Senhor Gaspar e a pequena Sophia, Geremias e Madelaine... nada de você, nem aquele seu atraso de cinco minutos. Meu estômago roncava pedindo um bolinho de chuva e um café bem quente e eu continuaria me negando a sair daquele aconchego vazio. Eu sei, minhas manias são estranhas. Supere isso e entenda que sou apaixonada pelo ser humano e toda sua essência. Observar as pessoas em seus afazeres diários não é algo tão comum assim, digo que até um problema para quem deveria ter ido trabalhar às oito horas da manhã e não foi. 

Esperei pacientemente pelo vento bagunçando o seu cabelo castanho e jogando para o ar o tempo que havia separado em frente ao espelho. Fiquei com saudade de ver sua silhueta desenhada ao longe, com uma pasta em mãos e um paletó brega ou adulto demais para seus vinte e poucos anos por sobre os ombros. Fiquei esperando pelo barulho do alarme do carro sendo desativado e pelo ronco do motor subindo o pequeno morro do bairro com aquele seu chapéu puro charme descansando no para-brisas. Mas você não apareceu hoje e meus pensamentos correm soltos cheios de "por quê's". 

Hoje você fez falta caro estranho andante despercebido e não pude contemplar o teu riso ao bater o pé no poste perto do lixo antes de enfim lembrar que esqueceu alguma coisa no apartamento e voltar buscar cumprimentando sorridente quem por ti passa. Queria eu poder ser a sortuda de ganhar um sorriso teu num dia desses, mas você mal sabe quem eu sou. Exceto pelos domingos que nos encontramos na feira ecológica do fim da rua e pelo aceno trocado, eu seria simplesmente mais uma pessoa no mundo que nunca conheceu. Cansei de observar a janela daqui, já é quase meio-dia e minha barriga ronrona como um felino na inquietude da fome. O sol vem desaparecendo e o relógio num tic-tac incessante começa a me irritar. 

Olho pela última vez a fresta da veneziana da sua janela e a luz apagada me diz que não o verei hoje. Fecho a cortina branca, coloco as pantufas e o roupão já em direção as escadas para verificar com o porteiro se chegou algo para mim. O interfone toca me acordando para o mundo de vez, o porteiro adivinha meus pensamentos e diz que a moto do correio acabou de passar. Desço a passos rápidos e o encontro parado ao lado do hall de entrada conversando descontraído com o carteiro. Você agradece e eu me arrependo pelo modo desleixado que costumo andar quando o mundo acorda torto para mim. Você sorri e em minha direção vem com a correspondência em mãos.

- Pensei que trabalhava às oito, o que te fez não querer tomar seu café matinal no parapeito da janela hoje? - Pergunta com um risinho maroto disfarçado.

O observo sem conter minhas dúvidas em minha expressão. Não respondo, pois me faltam palavras àquela declaração. Observar me parecia interessante, mas ser observada por um estranho era angustiante. Você sorri, eu não sei o seu nome, mas fico prestes a descobrir. Aquele sorriso que sempre desejei se forma em seus lábios, seus olhos semicerraram e alguns fios de cabelo caem sobre sua testa. Eu precisava urgentemente me alimentar e pelo que percebi era um auto-convite a pergunta. Como Dona Florinda, no seriado Chaves. o convidei para tomar uma xícara de café na bagunça de um apartamento, agora, quase vazio

** Tema indicado pelo grupo Projeto Escrita Criativa para o mês de Julho.**

2 comentários:

  1. Que gracinha seu texto! Me deixou com uma sensação boa no final.

    Beijos :*

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