25 de agosto de 2015

Uma manhã quase cinza

Tem dias que a gente acorda e vê o vidro embaçado, enxerga por entre a janela uma madrugada fria e repleta de sombras formadas pela neblina. O silêncio normalmente chega a ser inquietante e embora tenha mais gente dormindo nos quartos ao lado a solidão parece transparecer. O mundo é meio vazio em madrugadas assim e por dentro até o ronco da barriga pedindo alimento é angustiante. Dá para ouvir o barulho dos pingos que sobraram no telhado caírem de dois em dois tempos e a folhagem do jardim continua molhada pela chuva da noite anterior. O cheiro do café depois de despejar a água quente trás à tona o gostinho matinal, mas são quatro horas da manhã e todo mundo só acorda as seis. 

Os faróis dos carros iluminam as venezianas da janela e ultrapassam o branco da cortina iluminando o ambiente apagado. Bebo meu gole de café e está amargo. Observo as sombras na escuridão da cozinha, outro farol ilumina aqui dentro e me cego por alguns segundos. Às vezes os dias parecem mais cinzentos do que normalmente são. Despejo o resto do líquido na pia porque não tenho vontade de acrescentar açúcar e ao abrir a porta da frente dou de cara com um dia preto e branco esquecido pelo sol. E eu fujo. 

Não fujo de casa ou da minha família que ainda dorme no quentinho dos cobertores. Nem do café amargo que desce pelos canos ou dos vãos iluminados pelos faróis dos carros. Fujo de mim por um instante. Fujo da noite anterior que me manteve acordada com o olhar fixo no vazio e uma constante de lágrimas atrasadas em contratempos com as gotas da chuva. Fujo sem pensar muito bem aonde ir, molho os pés em poças de espelhos e aproveito para ver o dia ficar menos cinza.

Os carros continuam passando e a hora correndo. O azul, hoje enegrecido, do dia começa a surgir e vou deixando de lado uma noite de trovões e angustias. Engulo a saliva e sinto o gosto amargo de um pequeno doce erro. Esqueço meus rumos e aperto o passo dando meia volta. As árvores balançam no ritmo do vento frio, o próprio sopro fino assovia em meu ouvido causando arrepios. Eu volto para casa, ascendo as luzes da cozinha, preparo torradas e um café mais doce. Mas as luzes da escada se ascendem e entre chinelos de pano, roupão e cabelos desgrenhados surge a pessoa que dormia no quarto ao lado para me fazer companhia numa manhã quase cinza. 

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