15 de maio de 2017

Monólogo noturno de uma depressiva

Não sei se você já sentiu como se fosse um grande e desnecessário erro, como se um grande vazio a preenchesse, mesmo que isso possa soar contraditório. Não sei se você já sentiu algo te corroendo aos poucos sem descanso, te desmanchando em pedaços dentro de um inteiro, do seu inteiro. Algo que se espalha dentro de si e te destrói, como um soro aplicado na veia que vai se distribuindo pouco a pouco e você consegue sentir aquele incômodo por todos os locais os quais ele percorre. Mas não há como fugir.

Não tem como fazer as malas e se despedir de si. Não há como mandar embora esse vazio horrível que te preenche aos poucos. É um enorme canto escuro que chega, se aloja no interior e não pede licença. Um enorme emaranhado negro que te preenche liberando todas aquelas benditas borboletas no estômago, algo que vem e acaba com o jardinzinho das coisas boas que cultivou aí dentro. Algo que vem para te matar aos poucos, sem consentimento. 

E isso dói, dói porque nenhuma lágrima expulsa esse vazio. Se você pudesse olhar para dentro de mim veria o estrago, notaria no meu sorriso amarelo o quanto estou sofrendo quieta e tentando ignorar a confusão que se alojou em mim. Essa é uma daquelas noites que a gente não aguenta mais, sabe? Um daqueles dias que a gente buscou não desabar por 24 horas, mas talvez uma palavra qualquer retire o último dos pilares de quem tentou se manter forte e tudo desabe. 

Hoje eu me perguntei se o dia lá fora tinha sido bonito, se o sol tinha surgido, pois aqui dentro anda tudo tão nublado que eu nem sei mais qual a sensação de um dia bom. E eu não vi o sol surgir, não só porque aqui dentro armou temporal. Não vi porque me infiltrei nas minhas cobertas, fiz morada na minha cama o dia inteiro e lá fiquei, isolada do mundo, pedindo ajuda em silêncio. Uma ajuda que nem eu sequer sei se realmente quero. 

Ninguém notou. As pessoas nunca notam, mas que culpa eles tem, não é? A gente aprende bem a disfarçar sorrisos, a fazer brincadeiras e fingir que sempre está tudo bem. Ninguém entende como é possível passar madrugadas acordada, sem fazer nada interessante, apenas divagar e mesmo assim ter forças para enfrentar um dia cheio de responsabilidades, mesmo assim não poder fugir da vida que se leva. Ninguém entende a falta de apetite ou outras vezes a compulsão por preencher um vazio, como se qualquer coisa pudesse resolver o problema.

Nada nunca resolve. A gente pode passar horas chorando, dias disfarçando, chega um momento que as frases sem final se obrigam a ser concluídas com alguma pontuação. Não sei se você já se sentiu assim, sem um rumo para seguir, meio que andando na contramão do mundo, meio que apenas seguindo o fluxo. Não sei se você já se sentiu numa grande e contraditória confusão que não tem fim, numa bola de neve descendo um precipício que a cada dia cresce mais.

Tenho andado triste, as coisas que antes me animavam, hoje já não cumprem seu papel. Eu não consigo ler, não consigo escrever, não sei mais levar a vida normal que tanto levei. Acho que me perdi na minha própria confusão, no meu próprio vazio, nessa crise existencial. Não sei se você já se sentiu assim, não sei se a depressão já bateu a sua porta e você passou a sentir como se toda a sua vida fosse um enorme erro. Mas se sim, conhece bem a sensação de conformidade que vem agora, ao fechar os olhos e finalmente descansar a cabeça num travesseiro encharcado de lágrimas, aguardando o novo dia com o que restou de esperança.  

*ficção*

2 comentários:

  1. Miga que texto é esse???! Senti cada pedacinho de todo esse sentimento pesado que é quando estamos pra baixo. Que saudades de te ler. Eu sempre fico na dúvida se é um “eu lirico” ou se é você, então espero que esteja tudo bem. =) Quanto ao texto tá tudo lindo: tem sentimento, momentos e tanta dor. Você escolheu impecavelmente as palavras. Parabens. Beijos

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    1. É fictício, mas já me senti assim... Muito obrigada Beca, de coração! ♥

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