19 de fevereiro de 2019

A MEMÓRIA É FALHA AO TENTAR TE LEMBRAR

É estranho as memórias que a gente perde para o tempo, mesmo que em grande negação

Não queria esquecer teus fragmentos ou os pedaços da nossa história que foram se perdendo pela minha mente conturbada. Não queria perder a fonte de todas aquelas lembranças boas ao olhar para trás, e poder te materializar como se a distância entre nossos corpos fosse insignificante diante de uma imaginação forte. 

Nunca levei a sério essa questão do tempo ser o remédio para as coisas do coração, mas talvez ele seja e a gente nem precise ter noção disso de fato.

O tempo te levou de mim aos poucos, retirou o aroma das lembranças logo no início. Entre tantos corpos e perfumes nas ruas, passei a não reconhecer mais o teu cheiro por aí. Teve um tempo que era tão fácil te lembrar ao inspirar algo tão teu. Não importava quantos pulsos mais carregavam a mesma fragrância, aquele era o teu cheiro, o único que se perdeu da fronha do meu travesseiro...

De tempo em tempo o tempo te levou de mim, foi aos poucos, pedaço por pedaço arrancado de uma memória falha. Deixei de lembrar dos pesadelos, guardei bem longe pois não era esse o acervo da nossa história que queria destacar. Confesso que realmente nem lembro como eram os dias ruins do teu lado, o que guardei foi nosso lado bom.

Guardei minúcias tuas que quando encontro parecidas em outro alguém não consigo deixar de comparar. Teu jeito de levantar o lado direito da boca ao falar... que sempre fez com que eu tivesse ainda mais vontade de te encher de beijo, e eu lembro, era o que acontecia. Tua risada estérica quando fazia piadas intelectuais que mais ninguém entendia, mas eu ria junto pra te ver olhar pra mim com teu olhar semicerrado cheio de brilho.

Ah, mas há algo que o tempo não tirou de mim, talvez esse tipo de lembrança não possa ser arrancada nem por esse senhor todo poderoso aí. Teu "eu te amo" sussurrado jamais vai ser esquecido, mesmo em meio a outros milhões de "eu te amo's" que virão, o teu é minha lembrança favorita de nós.

Dizem que certos amores acontecem para nunca serem esquecidos, mas com as coisas que te lembro não preencho nem essas poucas linhas direito... contraditório não? Quem sabe seja o coração o único profissional do lembrar, pois na mente a materialização do sentimento só sabe se dissipar. 

O engraçado é que mesmo as memórias indo embora, o sentimento não faz as malas para ir junto. Houve um tempo em que existia conflitos emocionais, mas logo após essa guerra civil interna todas as emoções voltaram a ser o de sempre: amor. O nosso. Original e imutável de sempre. E esse desgraçado não sabe dizer adeus, não aprendeu com nossos corpos o significado da distância após o ponto final. 

A memória é falha ao tentar te lembrar, falha ao reconhecer aromas antigos, cores, jeitos, beijos ou formas, talvez porque o coração não queira a cópia barata das lembranças em nenhum outro alguém.  


- Gabrielle Roveda

14 de fevereiro de 2019

ANTES DO OUTRO É PRECISO AMAR A SI

Amor é cuidado, cuidado é presença, presença é estar e estar é ser.
Ser é complexidade.  

Diante dessa pequena analogia desmitificamos o amor romântico dependente do outro implantado em nós desde o útero. Não é preciso de algo ou alguém para se sentir completo, ninguém veio ao mundo pela metade. 

Amar não é feito de matemática, não se soma um mais um e se resulta em amor. Não há adições, não de algum ser pelo menos. Há sim, um completo e intenso sentimento de infinidade particular que, se não desenvolvido, resulta em carência emocional. O amor começa com uma complexa e trabalhosa viagem para dentro de si buscando o ser, apenas.

Amor é cuidado, como já dito. É olhar para dentro de si, reconhecer todos os obstáculos que fizemos nosso frágil e imaturo coração enfrentar em tempos passados, tudo por não entender aquilo que a fonte dos nossos instintos dizia. Muitos dos perrengues que já nos submetemos não foram escolhas pensadas, mas sim as regras ditadas sem eira nem beira que tanto escutamos ou lemos de todos os lados e julgamos ser o modelo certo de agir somente por costumes. Cuidar da mente e entender o próprio corpo é desapegar de ditos e crenças alheias para só assim poder ser presença em si. 

Cuidado é presença. Estar presente em si é entender que o que foi formou e o que vai vir formará um todo, mas o aqui, o agora é o que somos, é o tempo e espaço mais importante. Viver o momento e ter ciência de si no universo é praticar aquilo que na viagem do autoconhecimento aprendemos na teoria. Demoramos uma vida inteira e talvez nunca saberemos quem realmente somos, viver no pretérito e mistificar um futuro incerto serão somente grades de uma prisão que nós mesmos nos submeteremos. E pode ter certeza, que armadilhas internas são as piores de fugir. 

O ser é constituído do ato de estar presente, não aquilo que foi ou será. Você não é o que aconteceu anos atrás e nem aquilo que almeja com tanta convicção, você pode vir a ser o seu sonho ou meta. Mas hoje, você é o momento e o seu momento merece seu amor. 

Quando digo para aprender a amar a si antes de doar esse amor ao outro, digo para ter maturidade emocional e saber quem se é antes de enfrentar o corpo e a mente do outro. Um amor composto por pessoas incompletas só gera um relacionamento cheio de falhas. Amar não é um ato direcionado a algo ou alguém em especial, é apenas essência de quem sente com o coração. Sem rótulos, sem esperar do outro o que talvez, queira é de si.

Amar é transbordar o sentimento de dentro para fora e ter, diante disso, necessidade de compartilhar. É entender que não é preciso gritar para o mundo que você é a melhor pessoa da face da Terra e que por você ser o próprio amor da sua vida ou a panela que não precisa de tampa, que é totalmente autossuficiente e não depende do carinho de ninguém. Pelo contrário, isso não é amor próprio, é autonegação

Fomos criados como seres dependentes e sociais, afinal, ninguém conquista o próprio mundo sozinho, em toda a sua história há e sempre haverá interferência externa. Se nos foi dado o dom de compreender o sentimento, diferente apenas do simples sentir, que sejamos espertos e não nos privemos do instinto primordial da nossa espécie. 

Afinal, laranja nenhuma vem partida ao meio tendo que encontrar alguma metade.


- Gabrielle Roveda
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