04 agosto 2021

TEU SORRISO ME É MÉTRICA POÉTICA

Das coisas que preenchem minhas insônias recorrentes, teu sorriso se fez lembrança constante desde que fiz o tempo correr em câmera lenta para conseguir gravar com perfeição cada detalhe dele.

E não digo que fiz o tempo parar como se eu fosse algum "senhor do tempo" velho e barbudo que pudesse paralizar o momento só para te ver sorrir, mas naquele instante entrei em transe, numa outra dimensão onde os segundos pareciam correr bem mais lentos que o habitual e lá pude te perceber sem interferências.

Acho que ali, naquela exata situação me apaixonei.

Não por ti, mas pelo teu sorriso largo, um sorriso íntimo que me pareceu sem travas, livre de qualquer impedimento ou receio. Um sorriso teu que tomei a liberdade de designar como meu.

É engraçado dizer essas coisas assim, nessas palavras... me parece soar meio maluco, desconexo de uma realidade a qual estamos pautados ao conforto de que paixões incluem pessoas e não só sorrisos em situações específicas.

É quase como se apaixonar por uma cor, mas não pelo objeto a qual ela está colorindo.

No entanto, acredito que existe uma linha muito tênue entre o sorriso pelo qual me apaixonei e a pessoa que é dona dele, mas talvez eu não queira realmente admitir isso para mim.

Teu sorrir tem som de poesia, me é métrica poética. Tem a necessidade de se transpor em palavras cafonas organizadas em destoância e ressignificados em alguma estrofe clichê que eu consiga redigir.

E cá estou, semanas depois de registrar teu sorriso na minha mente te tornando eterno em três ou quatro frases que um dia irei reler e sorrir também por te lembrar inteiro ali, sorrindo sincero para mim. 

Só para mim. 

Sabe, esse teu sorriso tão meu me tirou de órbita... como se numa viagem interplanetária tu agarrasse minha mão e pousássemos de lua em lua por aí. 

É que teu eu me é um portal de dimensões daqueles que me arrasta para lugares distantes dos quais nem sei bem como pertencer e eu vou mesmo assim, quase que sem questionar.. é que tua mão na minha é confusão, mas de aguma forma também é segurança

Tu me é inconstância, incógnita interdimensional...

Não é como se eu não gostasse de me fazer astronauta e divagar nesse universo desconhecido como se tivesse algum controle sobre onde vou poder desacoplar... é até bom te decifrar em mínucias, te descobrir ainda melhor que todas as minhas suposições. 

Eu lembrei do teu sorriso e acabei por te transcrever arte em mim. Tatuei teu eu em mim com palavras.

Talvez a ligação química de algum complexo íonico tenha finalmente acendido um calorzinho no meu coração de gelo e na tentativa de afagar os ânimos achei melhor escrever para abafar o caso.

Te mantendo um registro inanimado de uma fúria poética apaixonada sem expor a necessidade de para ti ter que me expressar, sem encarar possíveis impulsos de um sentimentalismo que desconheço a intensidade e intenção com precisão.

Alego licença poética pra te tornar minha parte lírica, assim vou abrindo brechas pra te ter sem, de fato, pertencer.

25 junho 2021

É SEM GRAÇA A LUA CHEIA SEM VOCÊ

Leia escutando Apaga a luz - Nicolas Candido ft. Olívia .
A neblina a cobria, desfocada ali ela também embaralhava algo aqui dentro. 

Meus olhos falhos mais uma vez não conseguiam apreciar tamanha beleza. Estava frio, um desses dias gelados que as mãos fazem morada nos bolsos e o mundo permanece encoberto pela cabeça baixa que evita o vento cortante. Eu voltava do trabalho e a notificação no celular me lembrou que ela estaria completa igualzinha à última vez... infelizmente, nessa noite a vi sem você.

Sentei num degrau qualquer entre o caminho de casa e olhei para o céu. Busquei tua companhia em alguma estrela, em algum planeta perdido que resolvesse fazer questão de se manifestar. Mas você não estava em lugar nenhum, nem no breu daquela noite desfocada, muito menos do meu lado a ver a lua. 

Eu acho que senti tua falta, mas não gostaria de afirmar isso.

Deu saudade do teu calor a aquecer minhas mãos geladas, do teu corpo descansado ao lado do meu na espera de uma lua gigante que mal sabíamos mas frustraria expectativas. Fechei os olhos e aquela mesma playlist tocava nos fones, na mesma ordem não aleatória que escutamos juntos, numa outra rua, num outro ciclo lunar.

Te imaginei ali, confesso.

É bom te lembrar. Te reconstruir sem contextos... desengonçado, bobinho, meio sem saco para a vida, meio que sobrevivendo ao caos, inventando um mundo paralelo onde possa viver de verdade. Te reconstruí ali olhando para mim com esse sorriso que... droga, me faz sorrir só de lembrar.

Eu não sei o que tu faz comigo, o que essa mistura de sensações estranhas e aleatórias querem me dizer mesmo longe da tua presença. Não gosto de não saber o que acontece aqui dentro, nem da ideia de perder o controle da minha própria mente, mas tu consegue me tirar de órbita com tanta facilidade.

Não queria te dizer, mas a lua estava realmente bonita dessa vez. As nuvens foram embora com o tempo e deixaram ela brilhar em seu ápice para mim. Ingênua continuei a me perguntar entre questionamentos difusos se por um descuido qualquer parou para observá-la, se por um acaso desse universo também lembrou de mim... se riu mais uma vez dessa minha mania maluca de conversar com lua.

É engraçado. Caótico. Contraditório. Até receoso. Mas um fato:

Eu senti tua falta nesse luar.

Não era com a grande pupila da noite que pretendia conversar. Foi a tua presença que busquei.

Como se em silêncio gritasse para o universo todas as palavras trancafiadas que perduram em meu interior sem nem saber direito que frase formar. Uma conversa silenciosa sem nexo, sem coerência alguma, um reflexo perfeito do quebra-cabeça que venho falhando montar. Algo que nem eu entendo para poder ou me dar o luxo de querer expressar.

Sabe... queria realmente ser essa explosão de sensações que sou aqui, entre palavras e contextos escritos, essa mistura eloquente de sentimentos que desabrocha em conversas noturnas entre eu e meu eu manifestado em paranoias ocultas... mas dentro faz tanto frio. Até mais frio que lá fora...

Frio a ponto do café esfriar logo depois de pronto e ter aquele gosto de desistir da vida a cada gole. Não sei mais manter a chama acessa da emoção, meu mundo se tornou racional demais para expressar. Não sei em que momento perdi a essência gostosa de sentir com todo meu coração. Acho que em alguma estrada sem nome, algum lugar que não faço ideia de como retornar...

Suspirei fundo e abracei meu corpo num momento de autoproteção permanecendo quentinha no meu próprio colo sem ter o teu corpo conforto ali a me envolver enquanto encarava a lua cheia no céu a guardar outra vez meus segredos mais ocultos e me perguntava se, por sorte, estava a pensar em "nós" também...

Parti daquele degrau sem graça desanimada com aquele céu bonito a me guiar para casa. Restou minha cama vazia, essas palavras clichês aqui cuspidas e um café quase frio até o beirar da meia-noite quando por fim adormeci. Mais uma noite sem teu calor, sem teu papo tagarela de quem me apresentaria cada parte do universo em conversas longas madrugadas à dentro, sem um filme qualquer passando imune na tela enquanto finjo não tentar gravar na memória cada detalhe teu.

Acho que, por fim, apesar de toda essa enrolação... queria só dizer que a lua estava linda em seu ápice ontem e que mesmo indo contra meus princípios de coração de gelo, queria ter dividido ela contigo...

Mesmo que esse mecanismo de defesa covarde que adotei tenha preferido se calar e não criar expectativas, escolhido só te imaginar... eu ainda assim te queria lá. 

E outra vez, acabei por fugir, escolhi te eternizar nessas minhas palavras mesquinhas por medo de não conseguir fingir de novo que aqui dentro definitivamente nada existe. Por receio de te deixar saber o que não sei se quero sentir.

... mas, se por via de insanidade minha essa baboseira eu te mostrar... ´

saiba que a lua ainda é interessante de ser observada em qualquer uma de suas fases.

(Gabrielle Roveda)

23 junho 2021

TAL QUAL PLUTÃO

Leia escutando To Good At Goodbyes - Sam Smith

te faço poesia sem permissão alguma, perdão

te internalizo entre versos descontextualizados que só eu entendo

faço arte com a lembrança que carrego no peito da tua voz rouca e pincelo em aquarela planetas distantes com teu rosto num universo infinito o qual não alcanço 

retrato estrelas, constelações e detalhes minúcias que da tua imagem nunca consigo esquecer

teu sorriso de canto tal qual sol da via láctea, centro gravitacional que me atraí para ti

te construo galáxia no meu mundinho sem sal como se tu feito astronômico pudesse de fato me deixar orbitar

mas não orbito, seja por teimosia ou receio

não desacoplo desse eu distância que inventei de mim

sou feito astronauta, ando perdida em gravidade zero bem longe de casa

luto para retornar à estabilidade enquanto o alerta de oxigênio apita sem descansar entre uma tosse e outra

bip... bip... bip...

a garganta seca, os olhos marejados

encaro o horizonte através do capacete num lapso de suicídio mental querendo, na verdade, não partir dessa ilusão

o vidro desfocando pela fumaça tragada por pulmões desgastados, a paranoia constante se esvaindo em pensamentos interligados que já não fazem mais sentido

a chuva e o vento em redemoinhos dentro de mim marcando o êxtase das borboletas na tua ausência

me refaço planeta atmosférico e revivo outra vez

sobrevivo

aterrizo na minha sarcástica zona de conforto desconfortável

recorro ao mundo real, àquilo que desconheço e finjo entender 

aterro meus pés nesse chão caótico familiar demais 

estou em casa outra vez, mas não queria estar

a cama vazia, o pó acumulando nos livros, o cheiro de incenso de canela pairando no ar, o vidro embaçado enquanto o úmido da noite lentamente se transforma em mofo bem diante dos meus olhos

o mesmo quarto calado, o mesmo cárcere humano

sinto tua falta a aquecer meus pés gelados e talvez o coração

mas teu eu me é caminho longo, viagem interestelar

tal qual plutão

distante...

questionável...

talvez frio demais para poder existir

(Gabrielle Roveda)


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