23 de maio de 2019

A DISTÂNCIA É ESTRANHA QUANDO A PRESENÇA É INTERNA

Estávamos a sós.

Só você. Apenas eu.

Ambos corpos separados pelo espaço físico de anos.

Sobre o travesseiro mudo as memórias repousadas. 

Os ouvidos? Atentos ao interior daquele que aos poucos se armaria numa figurativa taquicardia emocional e àquela trilha sonora desgraçada. Iniciada bem ao fundo (shh!) baixinha, vinda lá do cantinho do inconsciente já à postos, totalmente decidida a nos aproximar em mais uma dessas noites. Essas que o pé gela pelo frio enquanto as mãos queimam na porcelana da xícara de café ardente e a gente olha para o céu estrelado e se questiona:

"Seria diferente?"

E eu diria que as primeiras palavras aqui descritas - curtas, espaçadas - bastariam como resposta.

Porque as entrelinhas (ah!), elas sempre nos bastaram.

Talvez não mais significado haja entre o espaço não explícito das nossas mensagens trocadas, mensagens não escritas, nem faladas. Talvez haja apenas algum entendimento (consentimento?) a submergir na linha do tempo da nossa distância atemporal no olhar profundo, tão lá dentro que chega a causar claustrofobia. 

Ou seria apenas nostalgia?

É estranha essa distância tão próxima que tu me causa, é estranha porque a presença é só interna, porque há um elo invisível e infinito quase como um cordão umbilical que me liga, não ao teu corpo, nem à presença reconfortante dos teus dedos nos meus, mas à tua alma. 

Não sei explicar, bem que eu gostaria!

Já busquei respostas da psicologia à matemática, mas nem razão, nem emoção explicam essa coisa estranha que surge de vez em quando, é uma faísca pequeninha, mas ainda assim uma faísca. Ninguém me explica porque volta e meia tu reaparece pra bagunçar meu interior, se faz presente mesmo sem estar e eu, bobinha, compartilho minha vida com a tua imagem fantasma.

E te imagino comigo enquanto o café esfria nas mãos, enquanto a névoa apaga as estrelas e a memória relembra teu perfume no deslizar do aroma que a noite traz. Eu sorrio, gargalho talvez. Um riso que seria pra ti ao olhar para trás, como se de alguma forma pudesse mirar o passado.

Eu te lembro, inteiro.

Te desconstruo ali, tal como construí. Na varanda de um outono sem graça mais um adeus, tão incessante como todos os outros. 

A sós.

Sem tu. Só eu.

Sem mais entrelinhas para compor a saudade. Sem teu calor ou tua respiração ofegante. Sem teu cabelo molhado molhando meu corpo. Sem tua cutícula por fazer arranhando de leve a minha pele, causando arrepios. Sem teu gosto salgado e teu lábio doce. Sem os pingos de chuva batucando no telhado. 

Sem nós... Tangíveis. 

(Gabrielle Roveda)

19 de fevereiro de 2019

A MEMÓRIA É FALHA AO TENTAR TE LEMBRAR

É estranho as memórias que a gente perde para o tempo, mesmo que em grande negação

Não queria esquecer teus fragmentos ou os pedaços da nossa história que foram se perdendo pela minha mente conturbada. Não queria perder a fonte de todas aquelas lembranças boas ao olhar para trás, e poder te materializar como se a distância entre nossos corpos fosse insignificante diante de uma imaginação forte. 

Nunca levei a sério essa questão do tempo ser o remédio para as coisas do coração, mas talvez ele seja e a gente nem precise ter noção disso de fato.

O tempo te levou de mim aos poucos, retirou o aroma das lembranças logo no início. Entre tantos corpos e perfumes nas ruas, passei a não reconhecer mais o teu cheiro por aí. Teve um tempo que era tão fácil te lembrar ao inspirar algo tão teu. Não importava quantos pulsos mais carregavam a mesma fragrância, aquele era o teu cheiro, o único que se perdeu da fronha do meu travesseiro...

De tempo em tempo o tempo te levou de mim, foi aos poucos, pedaço por pedaço arrancado de uma memória falha. Deixei de lembrar dos pesadelos, guardei bem longe pois não era esse o acervo da nossa história que queria destacar. Confesso que realmente nem lembro como eram os dias ruins do teu lado, o que guardei foi nosso lado bom.

Guardei minúcias tuas que quando encontro parecidas em outro alguém não consigo deixar de comparar. Teu jeito de levantar o lado direito da boca ao falar... que sempre fez com que eu tivesse ainda mais vontade de te encher de beijo, e eu lembro, era o que acontecia. Tua risada estérica quando fazia piadas intelectuais que mais ninguém entendia, mas eu ria junto pra te ver olhar pra mim com teu olhar semicerrado cheio de brilho.

Ah, mas há algo que o tempo não tirou de mim, talvez esse tipo de lembrança não possa ser arrancada nem por esse senhor todo poderoso aí. Teu "eu te amo" sussurrado jamais vai ser esquecido, mesmo em meio a outros milhões de "eu te amo's" que virão, o teu é minha lembrança favorita de nós.

Dizem que certos amores acontecem para nunca serem esquecidos, mas com as coisas que te lembro não preencho nem essas poucas linhas direito... contraditório não? Quem sabe seja o coração o único profissional do lembrar, pois na mente a materialização do sentimento só sabe se dissipar. 

O engraçado é que mesmo as memórias indo embora, o sentimento não faz as malas para ir junto. Houve um tempo em que existia conflitos emocionais, mas logo após essa guerra civil interna todas as emoções voltaram a ser o de sempre: amor. O nosso. Original e imutável de sempre. E esse desgraçado não sabe dizer adeus, não aprendeu com nossos corpos o significado da distância após o ponto final. 

A memória é falha ao tentar te lembrar, falha ao reconhecer aromas antigos, cores, jeitos, beijos ou formas, talvez porque o coração não queira a cópia barata das lembranças em nenhum outro alguém.  


- Gabrielle Roveda
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