14 agosto 2020

UM DIA EU TE CONTO

Te observei sorrir mais uma vez com as tuas incontáveis linhas de expressões diferentes manifestadas num único sorriso e vi teu olhar lotado de um misterioso universo quase inacessível me fitar com a profundidade mais esquisita que eu poderia esperar. Me observei por entre os rabiscos da tua íris desenhando o meu reflexo no teu eu sem inibições. 

Me vi em ti e te quis em mim da mesma maneira. 

Sabe, um dia me disseram que os olhos são as janelas da alma, pude ter certeza diante do teu olhar intensidade sobre a veracidade desse ditado ultrapassado enquanto te desconstruía e reconstruía diante do meu pensar para nunca ter chance de te esquecer. 

E não esqueci.

Te fiz memória em lapsos distantes de noites frias ao fechar pálpebras e te incluir nos meus diálogos mudos com a insônia. 

Te fiz presença em mim.

Apesar da carcaça insistente em aprisionar sensações e inibir o uso de diálogos internos, te vi inteiro, ali postado diante do meu corpo tão frágil ao teu toque. Paralisado no tempo, desafiando a lógica do universo, só meu por um instante.

Te manifestei em ideologias fracas que minha voz não deixa mentir. Em negações internas de que tu, por mais longe que esteja, vive aqui dentro desde aquele olhar. 

Me prendi em palavras, textos assíncronos, letras conectadas que tentam me desconectar de ti e daquele teu sorriso puxado pro lado que me ganha sem esforço. Me prendi a frases cafonas de ideias emocionalmente instáveis para trancar a enxurrada de sentimentalismo que nego te mostrar.

Talvez um dia eu te traga para o meu mundo, entre cafés amargos demais e melodias pautadas por uma voz doce enjoativa e te faça entender o meu lado também. Um dia eu te mostro meu eu incógnito e como todas as milhões de metáforas bregas fazem sentido numa vida tão sem sal. 

Um dia eu te conto do meu mundo, te mostro as letras de música engavetadas e canto com certa timidez aquelas que escrevi pra ti. Um dia te conto como é ver daqui as mesmas constelações, como todas essas estrelas apagadas brilham no caminho dos meus entornos em direção a ti. 

Um dia eu te trago para perto, na divisão do mundo entre xícaras de café ou goles de vinho amargo. Arranco mais um sorriso bobo que não te deixe ir, e se tiver sorte, a indecência inocente de nós dois permaneça por mais do que só um instante. 

Um dia eu te conto que eu sem teu riso torto não vivo, sobrevivo.

09 agosto 2020

LONGE DE CASA

Tenho andado pela metade.

Tem manhãs que o corpo levanta, mas a alma não acorda. Noutras a alma desperta e o resto permanece dopado de uma letargia repugnante.

As cores se escalam em tons de cinza, nada tem muita graça mais. Submerjo em madrugadas me embriagando de palavras, me iludindo em métricas cafonas como se por um acaso toda essa besteira pudesse me salvar da minha existência.

Perdi a cor.

A alma.

Ando vagando por aí como um zumbi, um corpo sem vida controlado por milhões de paranoias fúngicas que me inibem de ultrapassar o fino limite entre viver e existir.

Comi meu cérebro. Engoli numa garfada só, consumi todos os pensamentos para não ter que encarar mais nenhum. Joguei tudo para o pano branco do eu incógnito.

Não sei quem sou.

Me perdi por aí.

Deixei escapar algo no verão, acho que na areia macia que escorria entre os dedos. No castelo mixuruca que construí algo meu se foi também. 
A água me lavou, será?

Me levou...

Fez redemoinho, arrastou pela corrente gelada lá pro fundo do oceano.

Me fez morada em conchas.

E eu me fiz pedaço partido de uma solidão rígida fantasiada de grão de areia. Quis compor um espaço que talvez não fosse meu.

Acho que não sou daqui, talvez seja mais como poeira estelar.

Grão do útero do universo, resquício de uma biologia milenar, de uma incalculável e infinita história para bebê dormir sem moral nenhuma.

Me desfiz em fragmentos pequenos para caber sem chamar atenção. Mas chamei, pedaços de nada também são estrelas cadentes no céu.

Como um astronauta nostálgico ando com saudade de  ser gravidade zero, apenas ser sem estar.

Estou longe de casa, não sei mais pertencer.

Eu só quero ir embora daqui.

04 agosto 2020

NÃO GOSTO DE COISAS APERTADAS

Passei muito tempo me encolhendo. Em sapatos apertados, em lugares do qual não pertencia, em corações miúdos, em opiniões pequenas. Mas chega uma hora que o diminuto incomoda, os calos doem, o sangue estanca no elástico, fica vermelho, depois roxo, ganha a cor do desespero, amortece os sentidos e aí, se não impedir é preciso amputar. Um longo caminho da prisão à invalidez.

Não gosto de coisas apertadas, prefiro meus pés descalços à tocar as texturas do mundo, meu moletom largo, meus cabelos ao vento, a janela do carro aberta, o poema desprendido de métricas. Nunca gostei de crenças limitantes, nem de padrões infiltrados com malícia e absorvidos na inocência. Não é sobre sapatos, roupas ou gaiolas de concreto que encarceram corpos nas rotinas da cidade grande, mas sobre um sentido de liberdade introspectivo

Não é sobre o mundo de fora, é sobre o mundo de dentro.

Nada que me prende me tem por tempo demais, nada que me limite me faz pertencer. Se ao invés de limitar você pudesse voar junto? Nada é posse, nem a gente. O mundo não é nosso, não somos do mundo, consegue compreender? Somos parte, passagem, instantes de um todo complexo. Somos como grãos de areia na composição da costa, dias do refresco do mar, outros do sol escaldante, partes de um todo, mas ainda assim únicos e nossos.

Sabe, a liberdade é um acúmulo de pequenos fragmentos de coragem. Coragem para aceitar quem se é, o que se quer. Nos colocamos diante de situações que não condizem com a gente por ambição em encarar uma vida que não é nossa. Liberdade é sobre você na sua própria companhia, sobre ouvir o que seu eu longe de arquétipos, distante da sombra social, tem a dizer sobre você. 

Não me fale que é livre porque viajou o mundo se não sabe como viajar para dentro de si. Não me diga que conhece as sete maravilhas do planeta Terra se não consegue apreciar a maravilha da sua própria companhia

Por favor, não me diga que é livre quando abriga seu eu maior em anfitriões minúsculos.
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