04 agosto 2020

NÃO GOSTO DE COISAS APERTADAS

Passei muito tempo me encolhendo. Em sapatos apertados, em lugares do qual não pertencia, em corações miúdos, em opiniões pequenas. Mas chega uma hora que o diminuto incomoda, os calos doem, o sangue estanca no elástico, fica vermelho, depois roxo, ganha a cor do desespero, amortece os sentidos e aí, se não impedir é preciso amputar. Um longo caminho da prisão à invalidez.

Não gosto de coisas apertadas, prefiro meus pés descalços à tocar as texturas do mundo, meu moletom largo, meus cabelos ao vento, a janela do carro aberta, o poema desprendido de métricas. Nunca gostei de crenças limitantes, nem de padrões infiltrados com malícia e absorvidos na inocência. Não é sobre sapatos, roupas ou gaiolas de concreto que encarceram corpos nas rotinas da cidade grande, mas sobre um sentido de liberdade introspectivo

Não é sobre o mundo de fora, é sobre o mundo de dentro.

Nada que me prende me tem por tempo demais, nada que me limite me faz pertencer. Se ao invés de limitar você pudesse voar junto? Nada é posse, nem a gente. O mundo não é nosso, não somos do mundo, consegue compreender? Somos parte, passagem, instantes de um todo complexo. Somos como grãos de areia na composição da costa, dias do refresco do mar, outros do sol escaldante, partes de um todo, mas ainda assim únicos e nossos.

Sabe, a liberdade é um acúmulo de pequenos fragmentos de coragem. Coragem para aceitar quem se é, o que se quer. Nos colocamos diante de situações que não condizem com a gente por ambição em encarar uma vida que não é nossa. Liberdade é sobre você na sua própria companhia, sobre ouvir o que seu eu longe de arquétipos, distante da sombra social, tem a dizer sobre você. 

Não me fale que é livre porque viajou o mundo se não sabe como viajar para dentro de si. Não me diga que conhece as sete maravilhas do planeta Terra se não consegue apreciar a maravilha da sua própria companhia

Por favor, não me diga que é livre quando abriga seu eu maior em anfitriões minúsculos.

10 junho 2020

É QUE É DEU SAUDADE, SABE

Escrevi saudade nas entrelinhas do meu involuntário pensamento e meu consciente te fez presença num rabisco com teu nome, num breve vestígio de nós dois lotado de significados ocultos que eu talvez, me faça querer negar.

É que deu saudade, sabe, da sensação dos teus dedos encaixados nos meus, do teu olhar analítico tentando me desvendar sem sucesso, da tua intensidade aplanada pelo receio de ir além. Deu saudade do gosto doce da tua boca na minha, da nossa mistura indecente e do teu beijo macio tão encaixe do meu.

Nasceu uma sensação estranha de cócegas no estômago diante dos resquícios das vãs lembranças tuas e eu te trouxe pra cá, inocente, como quem sonha acordada e te molda num vácuo imaterial. Te construí com o mesmo sorriso curvado pro lado que me ganha sem nenhum esforço e mais uma vez senti teu corpo colado no meu, as tuas mãos a viajar pelo meu isentas de qualquer timidez.

Até deixei nutrir um calorzinho dentro do peito, território arriscado do qual ninguém consegue chegar fácil assim. Fui passear com a saudade e acabei por parar na tua porta, pensei em entrar sem bater, te abraçar apertado e inconsequentemente, te roubar para mim, uma pena a distância inconstante da realidade me impedir.

Pensei em te ligar, dizer que meras mensagens não me são suficientes, que sinto falta do som da tua voz que difere em tons suaves quando direcionada a mim. Gritar no teu ouvido que você levou um tantão de mim e esqueceu pedaços de você por aqui. No entanto não saberia como falar, pois minha mente ansiosa tão cheia de assuntos poderia facilmente se perder num foco único de você. 

É que deu saudade, sabe, das coisas breves que vivemos e daquilo que não tivemos chance de compartilhar. Fico me perguntando enquanto escrevo linhas que, talvez, por ti nem sejam lidas o quanto disso tudo é recíproco, se for. Sei lá, será que as memórias de mim, por um acaso, também te causam certo calor no coração?

Sabe, é tão irônica essa presença que tu me é sem nem me ser, sem querer.

Você aí, no seu mundinho e eu aqui te invadindo em pensamentos numa distância imoral. Um "aí" tão regado de sorte por te ter enquanto o meu "aqui" vira a noite ao se perder na imatura e insaciável vontade de você. 

10 abril 2020

PANDEMIA DO EGOÍSMO

Hoje eu fui dormir chorando. 

Deitei a cabeça no travesseiro e não pude expulsar da minha mente o invisível que me assusta. 

Tranquei a respiração para poder ouvir o som do silêncio
Tranquei a respiração para tentar organizar o caos descontruído aqui dentro. 
Para escutar com atenção o sono dos meus pais em constantes comuns

Silenciei até conseguir ouvir o cômodo ao lado descansar no breu, buscando constâncias na frequência respiratória que pudessem me acalmar dizendo que tudo está completamente normal

E torcendo para que continue assim. 
Torcendo para que de mim o invisível não tire o amor palpável. 

Enquanto meu coração acelerava numa ansiedade febril, meu corpo imóvel construía somente lágrimas. 

Lágrimas de um peito apertado que teme a pandemia do invisível. 
Teme aquilo que descrente o mundo tenta ignorar

Aquilo que estatisticamente não descongela corações feitos de pedra até que o calor dessa situação infernal queime a própria pele

Lágrimas geladas em noites de início de inverno onde a natureza naturalmente debilita deixando o mundo ainda mais vulnerável
Onde a preocupação dobra o tamanho. 

Lágrimas pela empatia, vacina não muito difundida. 

Hoje eu dormi chorando. 
Pelo maior inimigo da humanidade escondido no reflexo do espelho. 

Chorei pelo medo estampado no ato
Pelo descaso.
Pelos doentes anônimos
Pelo rosto conhecido que vai portar o tombo da realidade na consciência alheia. 
Pelo choro ao vento, pelo adendo de vários adeus não ditos
E pelos demais adeus encomendados pela imprudência dos céticos

Quantos rostos conhecidos vão ser necessários entrar na numerologia do caos para por fim levar a sério o terror instalado? 

Quantas cédulas na carteia serão realmente importantes quando a possibilidade de tocar o corpo frio de quem se amou em vida não for mais permitida? 

Hoje eu fui dormir chorando. 
Não só pelo gráfico que sobe na velocidade da luz. 
Mas pela pandemia do egoísmo.


#FIQUEEMCASA
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